Após meses de espera, o custo da passagem até o hospital se torna outro problema. Faltas ocorrem em um quarto dos atendimentos agendados.

Pacientes do SUS na Grande BH cancelam consultas por falta de dinheiro para ônibus

O sistema público de saúde de Minas Gerais está deixando de atender pacientes que levaram meses para conseguir uma consulta e que não tem dinheiro para pagar a passagem até o hospital. Na Região Metropolita de Belo Horizonte, um quarto dos pacientes está cancelando a consulta.

A desempregada Rosilene de Paula conta que teve que pegar dinheiro emprestado com o namorado para vir à consulta com o otorrinolaringologista.

“Infelizmente, se a gente não tiver quem empreste, não tiver condições de vir, a gente perde a consulta depois de esperar por tão longo tempo. Um ano e seis meses esperando a consulta”, disse Rosilene.

Em Contagem, na Grande BH, esta situação é comum. “Se eu não conseguir o dinheiro não dá pra vir”, disse a desempregada Leila Juliana de Araujo.

As listas de atendimentos de um dos postos visitados pela reportagem comprovam que muitos pacientes faltaram. Na ortopedia, dos 31 pacientes agendados, 13 faltaram. Na nutrição, dos 12 agendados, oito faltaram.

“Somente neste centro de especialidades são disponibilizadas 11.200 consultas de várias especialidades e temos uma perda real mensal de quase 20 ou 25% por mês de não comparecimento de usuários nas consultas”, disse o secretário de Saúde de Contagem, Bruno Diniz.

Em Belo Horizonte, a média é a mesma: um quarto dos pacientes não aparece nas consultas. A gerente de uma unidade de atendimentos especializados também mostra as listas de marcações com a falta de muitos pacientes.

A irmã da dona de casa Silvia Marisa Duque Pinto foi encaminhada pela prefeitura de uma cidade do interior para consultas com um pneumologista, na capital. Só que ela precisava pagar a passagem e estava sem recursos.

“Ela faltou porque no dia ela não tinha dinheiro para vir. Aí, ela teve que faltar à consulta”, falou Silvia.

A falta de dinheiro para o transporte é um dos principais motivos de ausência dos pacientes em consultas marcadas. No Sistema Único de Saúde, que tem uma longa fila de espera por atendimento, isso faz diferença.A gerente da Central de Marcações de Consultas de Belo Horizonte estima que cada atendimento custe em torno de R$ 10. Dos 40 mil pacientes marcados por mês, na capital, dez mil não comparecem. Só aí, prejuízo de R$ 100 mil mensais.

Além disso, quando alguém falta à consulta, prejudica quem está atrás na fila.

“O paciente faltoso ele deixa um horário inativo, um horário que não é aproveitado. Então, há um desperdício de recursos humanos, desperdício de recursos econômicos, né, de dinheiro, mesmo. E causa um prejuízo, porque o paciente faltoso ele é, ele é direcionado pelo sistema para fila, para o último lugar da fila. Então, é uma fila que não acaba”, falou a gerente da Central de Marcações de Consultas Especializadas de Belo Horizonte, Cristina Pirani Valadares.

Em Belo Horizonte, a espera pelo atendimento pode ser de até três anos, no caso de endocrinologia para obesidade grave. E mais de seis meses para fazer um ultrassom abdominal.

A dona de casa Beatriz de Oliveira Brandão conhece bem a angústia de esperar. O filho dela tem crises graves de asma e precisa de consultas regulares, mas nem sempre consegue.

“Já teve tempo que eu esperei, assim, quatro meses, três meses por uma consulta, sendo que eu tinha que fazer um retorno no mês seguinte”, disse Beatriz.

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